Metáforas no discurso dos mortos

o caso do Vale do Amanhecer

Resumo

A história nos conta que desde os tempos do Egito Antigo, os homens possuem um apetite singular em se relacionar com o além-túmulo. Defronte a este fato instigante, nos interessamos a investigar neste trabalho se a linguagem figurada se elenca como um portal que conecta linguisticamente o mundo dos vivos com o mundo dos mortos. Utilizamos para tanto os aportes teórico-metodológicos da Linguística Cognitiva e a sua Teoria da Metáfora Conceptual para analisar duas mensagens de entidades espirituais canalizadas por médiuns que para a crença da doutrina espiritualista brasileira Vale do Amanhecer, podem recebê-las. Feito isso chegamos as seguintes conclusões: 1) A metáfora elenca-se como uma ponte que possibilita de maneira singular e fluída  interlocuções entre humanos e espíritos; 2) Esse fato se dá porque as entidades incorporadas nos sujeitos que utilizam-se para se fazerem presentes aproveitam-se de todo o conteúdo conceptual e sociocultural apreendido experiencialmente por estes instrumentos, costurando por meio destes tecidos linguísticos-discursivos textualmente coesivos e coerentes; 3) Ao ouvirem as mensagens figurativamente estruturadas, os ouvintes do além conseguem tanto traçar novas formas de pensamento quanto novos moldes de ordenamentos sociais.

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Publicado
2021-08-08
Como Citar
SANTO, Bruno de Jesus Espírito. Metáforas no discurso dos mortos. Enlaces, [S.l.], v. 2, p. e021006, ago. 2021. ISSN 2675-9810. Disponível em: <https://publicacoes.ifba.edu.br/index.php/enlaces/article/view/906>. Acesso em: 17 set. 2021.
Edição
Seção
ARTIGOS

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